Crônicas

Inopinadamente, flores

— para minha mãe, Lucia.

Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante.

De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam.

Por um breve, quase memorável período, flores são flores pré queda:

— murcham.

E assim abubam solos com próximas florações. Semeiam, na compacta existência, motivos para seguirmos, talos tensos, pétalas abertas em busca constante do sol.

Botões como ovários: dilatam-se até romperem em humanidade.

Das entranhas de todo data-base concebido, da terra revirada do jardim do vizinho, misturam-se memórias, adubo, formas e cores. Vidas.

Da paciência surge a atenção,
Da atenção brota o entusiasmo
Deste, o encantamento

Aplausos na praia do Arpoador; reverência.

Ecoa a obra maior da natureza divina:

MÃES

Feliz dia a todas as cores que moldam e perfumam todas as existências.

Bom domingo a todas vocês!

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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